A Vida, a Obra e o Tempo de Aldo Locatelli
Acreditamos que a Aldo Locatelli devam ser atribuídos as características que o escritor Otto Maria Carpeux dedicou a Giuseppe Verdi, quando escreveu sobre a importância do compositor para o processo de formação da nação italiana. Ele diz que o grande músico italiano tornou-se um símbolo da luta pela liberdade, o artista do alto idealismo e do orgulho patriótico para o seu país. Mas, ao falarmos de Locatelli, devemos somar ainda outras qualidades: a sua maestria técnica, a imaginação grandiosa e operística apontadas por Aldo Obino, o talento de colorista, a excelência do desenhista e, não menos importante, o seu papel de demiurgo na visualização de grande parte do imaginário religioso e mítico do povo gaúcho.
Não é pouco, mas ainda não é tudo. A pintura mural de Locatelli é como algumas obras cinematógráficas, que tendo sido criadas para serem vistas em telas grandes, perdem boa parte de seu impacto se o fizermos nas telas pequenas dos aparelhos de televisão. A obra pública civil e religiosa de Aldo locatelli deve ser vista in loco. Só assim teremos a real e precisa dimensão de sua importância, grandeza e excelência como fato artístico e social.
É como escreveu o poeta Mário Quintana em “Estranha Verdade”, texto de seu caderno H, publicado no Caderno de Sábado de 22 de julho de 1972: “Tudo pode sair muito mais bonito nas fotografias, mas sai muito mais verdadeiro nas pinturas.”
Em 18 de agosto de 1915, em Villa d’Almè, subúrbio de Bérgamo, na região da Lombardia, norte da Itália, nasce o filho de Luigi Locatelli e de Maria Marzapane, batizado na paróquia local como Aldo Danielle Locatelli. Oriundo de uma família humilde, o futuro artista aprende desde cedo, com o pai, a necessidade de dedicar-se de corpo e alma ao trabalho, como forma de atingir algum resultado. Mecânico durante a semana e colaborando com a trattoria da família nos sábados e domingos, Luigi Locatelli consegue levar todos os filhos a estudar e podemos imaginar Dona Maria estimulando a fé dos filhos através da educação religiosa.
Após um passado glorioso, a Itália, no início do século XX, deixa a desejar enquanto centro produtor de artes plásticas. No século anterior, o país passara por uma série de lutas internas visando sua unificação política e ficando à deriva dos principais movimentos artísticos do século XIX.
O Futurismo é o primeiro grande movimento artístico e literário da Itália no Século XX. Revolucionário, radical e polêmico em suas obras e talvez mais em suas teorias, este movimento desintegrou-se rapidamente com a Primeira Guerra Mundial.
É então que surge o pintor Giorgio de Chirico, uma novidade no panorama europeu, fazendo uma arte não ideológica, despreocupada com causas, fora do tempo presente. A arte italiana encaminha-se então para uma manifestação tradicional, um retorno à figuração realista e para uma reavaliação do passado.
As estéticas coexitentes, muito diversa e aé mesmo opostas, eram de domínio público na Itália. Mas será que estas provocações chegaram na província de Bérgamo? Não sabemos. No ano de 1925, um grupo de artistas, comandados pelo pintor Pierfrancesco Taragni, estão em Villa d’Almè para restaura a igreja da cidade. O pequeno Aldo, então com dez anos, acompanha tudo, já que o grupo utiliza a trattoria dos Locatelli.
Podemos imaginá-lo, à noite, depois de encerados os trabalhos, repassando tudo o que aprendeu, organizando todas as informações técnicas utilizadas pelos artistas. Provavelmente é daí que surge o seu interesse pela pintura e pelos murias, já que a curiosidade deve ter surgido antes, da convivência com as pinturas na mesma igreja, parte do gigantesco patrimônio cultural e artístico da Itália.
É em 1931 que Aldo Locatelli inicia o Curso de Decoração no “Curso Livre de Intrução Andre Fantoni”, na sua Bérgamo. Apesar de toda a conturbada história que acontece ao seu redor, somos levados a crer que sua formação pautou-se numa estrutura tradicional. Na Pinacoteca da Academia de Bérgamo, ele pode entrar em contato com obras dpos mestres italianos:Rafael, Botticelli, Fra Angelico, Tintoretto e Michelangelo.
No ano seguinte, em 1932, Locatelli inicia o curso na Academia de Belas Artes de Bérgamo, que irá durar até 1935. É um período de grande atividade em toda a Itália com uma nova direção para a política cultural. Este plano vai promover, em Roma, uma enorme distruição do patrimônio arquitetônico, com a demolição de dezenas de igrejas, principalmente as do período barroco. Em 1935 Locatelli termina seu curso em Bérgamo.
É nesta Itália contraditória que Locatelli recebe, em 1937, uma bolsa de aprimoramento na Escola de Belas Artes de Roma. Na cidade Eterna visitará grandes coleções romanas e, no Vaticano, as obras-primas do passado enquanto pode ver, nas galerias e nas ruas, o expansionismo da arte oficial da época.
Tanto quanto a are antiga, esta também é uma arte grandiosa, voltada para a glorificação do passado e da antecipação de um futuro idealizado em termos de grandiosidade. Artistas engajados com o regime promovem uma arte evocativa, plena de alegorias aludindo a temas como a italianità, nação, trabalho e família.
Aldo locatelli é convocado a servir no exército em 1941. Vai para a Ospedalete, cidade da Riviera italiana, onde conhece Mercedes Biancheri, que se tornará sua esposa. Fica sob o comando de um coronel apreciador de arte que lhe dá licença para estudar e analisar obras de arte. Já tendo suas habilidades artísticas conhecidas, vai então para Roma, e recebe carta branca para visitar todos os museus e pinacotecas da Cidade Eterna, enquanto espera ser chamado a luta.
É finalmente requisitado. Parte para o norte da África onde é ferido em combate. Impossibilitado de continuar lutando é desmobilizado e vai viver um período no qual consolidará sua reputação como artista e também sofrerá muitas perdas familiares. Em 1940, enquanto combatia na África, morre sue pai. O artista retorna a Vila d’Almè e dedica-se a estudar e trabalhar. Em 1943 seu irmão Angelo, apelidado de “Nino”, morre em combate, e em 1944 perde sua mãe. Estas perdas sucessivas provocam um grande sofrimento em Locatelli, provocação da qual ele falará continuadamente no futuro.
Mas também é neste período, entre 1943 e 1945, que o artista irá criar sua primeira grande obra. Atendendo a um convite do ex-cura de Villa d’Almè, Locatelli pintará mais de trinta afrescos para a Igreja de Santa Cruz, no Vale Brembana, cidade da província de Bérgamo. Nesta obra tem como parceiro o pintor Emílio Sessa, que depois virá também para o Brasil.
Após a Guerra, em uma Itália neo-realista e semi-destruída, Locatelli casa-se com Mercedes e trabalha ativamente na restauração da Catedral de Gênova e em quadros do Vaticano, ode a Comissão de Arte lhe confere o título de “Il Mago dei Colori” (O Mago das Cores)
A Vida no Brasil
Primeiros tempos em Pelotas
Em 1948 Locatelli trabalhava em uma grande pintura, na Catedral dos Bispos em Gênova, quando é convidado a viajar par o Brasil. Este convite partiu de Dom Antônio Záttera, então Bispo da cidade de Pelotas. Diz o Bispo, conforme Nélson Abott de Freitas, que “[...] precisava de um pintor para a Catedral, e quando fui à Europa, conversei a esse respeito com o Núncio Apostólico de Paris, que mais tarde todos conheceriam como o Papa João XXIII. Pois o Cardeal era nascido num povoado daqueles arredors de Bérgamo e, portanto, conhecia o artista. Em seguida escrevi ao Bispo daqeula cidade italiana, e ele, então, me pôs em contato com o pintor”.
Locatelli aceita interromper o trabalho em andamento e partir para o Brasil. Podemos imaginá-lo chegando na cidade de Pelotas, no dia 1° de novembro, alojando-se num quarto do próprio bispado e iniciando os trabalhos da Catedral São Francisco de Paula.
Começa a participar da vida social e cultural da pequena cidade, integrando-se rapidamente. Nos intervalos dos trabalhos da Catedral inicia um curso de pintura, aberto a quem se interessasse pelo ofício. Os que podiam pagavam , mas os outros também eram aceitos. o cusro prospera e tem ótima repercussão. Isto leva-o a ser convidado po Dona Marina Morais Pires, uma personalidade local, a dar aulas na recém-criada Escola de Belas Artes. Assim, o jovem Locatelli começa sua atividade como professor ao lado do escultor Antonio Caringi, professor fundador daquela instituição de ensio. Locatelli introduz inovações, consideradas extravagantes, no ensino local de arte, tais como o desenho de nu artístico e ainda as atividades fira da sala de aula, como passeios em visitas a mostas e eventos.
Pintará em Pelotas, além da Catedral, uam série de obras de cavalete, ente as quais a obra intitulada “Espanhola”. No final deste período Locatelli conclui o conjunto de afrescos da Catedral e, certamente aclimatado na nova terra, chama ao Brasil sua esposa Mercedes que vem acompanhada da irmã, Franca. Em Pelotas nascerá, a 28 de setem bro de 1950, Roberto, o primeiro filho do casal Locatelli.
Neste mesmo ano os afrescos da Catedral estão prontos. Locatelli trabalhou rapidamente, uma característica sua que comprovaremos ao longo de toda a sua curta carreira. Mas no caso de Pelotas isso também é explicado pelo fato do artista ter utilizado na cúpula da Catedral, “A Apoteose de São Francisco de Paula”, um esquema anteriormente utilizado na Colegiata Abbaziale di Nostra Signora del Remedio, em Gênova. Neste mesmo ano o renomado pintor pelotense Leopoldo Gotuzzo, vale como uma consagração.
A repercussão da obra alcança todo o Rio grande e o artista será, a aprtir de então, constantemente solicitado pelas instâncias oficiais – a Igreja e o Estado – a executar inúmeras obras.
Gomes, Paulo. A Vida,a Obra e o Tempo de Aldo Locatelli. O Mago das Cores: Aldo Locatelli. Porto Alegre, 1998